sábado, 31 de março de 2007

A Quaresma da minha infância!

Safara


Hoje dei comigo a lembrar a minha infância em terras do Sul e a fé de quem acredita em tempos de Quaresma. As minhas recordações levam-me a Safara, uma aldeia no distrito de Beja, concelho de Moura. Safara é uma pequena aldeia perdida entre a planície alentejana e as serras que cortam os ventos de Espanha e onde eu vivi entre os anos 1954/64.
Safara tem uma praça principal com um jardim no qual tem uma fonte de homenagem ao povo de Safara. A Ermida de Santa Ana e a Capela de S. Sebastião.


Ermida de Santa Ana Capela de S. Sebastião

Safara, nestes dias de Quaresma vestia-se de roxo e rosmaninho.
A Igreja Paroquial (séc.XVI-XVII Património Histórico Nacional, tinha na época belíssimos painéis de azulejos invocando a Via Sacra, cobria todos os seus santos com panos roxos nesta época do ano, símbolo do sentimento de tristeza e respeito pela dor do menino que se fez homem e que se tinha deixado morrer por todos os erros da humanidade. E assim ficavam até ao momento da ressurreição. A Igreja era imponente aos meus olhos de menina. Eu entrava pela enorme porta principal, estava sempre aberta para nos receber, com passos miúdos e muito leves para não fazer estalar o chão de madeira e assim despertar quem ali se encontrava em meditação. Ficava ali largas horas a olhar para as imagens cobertas pela cor da paixão e imaginando um mundo só meu.
O Senhor dos Passos, lá em cima no andor, carregando uma cruz enorme às costas, coberto de feridas, ensanguentado e exausto, num sofrimento enorme, imóvel e envolto em panos roxos, fazia-me ficar muito triste. Um outro Cristo, deitado debaixo de um altar, dentro de um caixão, metia-me medo, mal me conseguia aproximar. Ficava ainda mais triste, constrangida,pensativa, perdida. Não entendia o porque de tanto sofrimento no rosto daquele homem que me ensinaram a amar por ser Santo.
Existia na altura em Safara, uma irmandade que não me recordo o nome, mas da qual fazia parte a Irmã Maria de Jesus, a Madre Superiora, que me ensinou a catequese e a compreender o significado da Quaresma, da Páscoa, e de toda a vida de Cristo. A irmã Raquel, uma freira bonacheirona e muito simpática que era a nossa enfermeira, vinha a minha casa dar-me as injecções quando eu estava doente e o Dr. Carlos ou o Dr. Louro mas receitavam, são estas pessoas e tantas outras de Safara que preenchem o mundo real e imaginário da minha infância. O senhor da Farmácia, o casal Guerra dos Correios, as lojas e as tabernas de Safara, são também pedras sólidas do meu crescer em terras Alentejanas.
A procissão das “Endoenças” em Safara é qualquer coisa de que não esqueço. Poucas festas existiam nestas aldeias esquecidas do Alentejo, num país de terras de fome e miséria, nestes tempos de repressão. Era a procissão nocturna do Encontro entre Jesus e sua Mãe.
O andor do Senhor dos Passos saia da Igreja para o silêncio da noite, o compasso marcado pelos Farricocos (homens descalços, com túnicas e cabeças tapadas com capuz) eu chamava-lhes "cucas”. O respeito no silêncio do povo.
Depois o Encontro entre Mãe e Filho. E aí o meu corações parava para ouvir a Maria Madalena com uma voz imaculada, cantando com dor na voz.
Maria, encontra o seu filho perdido na dor. O silêncio aperta-nos o peito com vontade de chorar. Madalena enxuga o rosto de Jesus e eu vejo boquiaberta, o seu rosto naquele pano que Maria Madalena vai desenrolando e cantando. A sua bonita voz eleva-se na noite, num trinado que nos faz arrepiar. Nunca ouvi cantar tão bem, aquela voz no silêncio da noite transporta-nos para outros tempos perdido nos séculos e nos homens. O tempo pára. E eu não esqueci. É um quadro vivo nas memórias de menina.
Safara, é a terra que mais me marcou a infância em todos os sentidos e me deixou mais saudades. E porque o tempo não volta para trás, resta-nos recordar, quando as recordações são assim tão vivas e tão felizes.

quinta-feira, 29 de março de 2007

Sergio Godinho!

Chama-se "Às Vezes o Amor" é o primeiro single do novo álbum de Sérgio Godinho, o álbum chama-se "Ligação Directa". Vale a pena ouvir Sérgio Godinho de novo.

Eunice Munõz



Sem dúvida que a Internet é um óptimo meio de comunicação entre as pessoas. Divulgar e fazer chegar a imagem e a palavra a quem a deseja e não tem outro meio para o fazer.
Este receio também aconteceu em relação à TV quando ela apareceu e hoje através dela podemos apreciar o trabalho dos nossos actores. Pena é que não seja mais divulgado o Teatro.

Mas voltemos a falar de Eunice do Carmo Munõz. Eunice nasceu no Alentejo, mais precisamente na Amareleja, pequena aldeia em pleno Alentejo profundo. Nasceu em 1928 numa tarde quente de fins de Julho.
A família formava a Troupe Carmo e fazia as delícias das populações do Sul. A minha mãe ainda se recorda da ansiedade e frenesim que a chegada do Circo Carmo provocava naquela gente de Barrancos. E como ainda recorda igualmente com saudades de ver actuar a mãe de Eunice, a grande Mimi!
Eunice não vivia com grande alegria a sua actuação nos palcos de pano, Achava mais graça, depois do espectáculo e com o teatro vazio, contar com o pai, as moedas que constituíam a receita da bilheteira.
Em 1941, Amélia Rey Colaço, directora da Companhia Rey Colaço Robles Monteiro, o maior prestígio da cena portuguesa, precisou de três raparigas muito novas, que contracenassem com Maria Lalande no 1º acto de Vendaval, que seria a última peça de Virgínia Vitorino. E o velho tenor Sales Ribeiro lembrou-se de recomendar a pequena dos Muñoz.Com apenas 13 anos, mas já com uma grande experiência de palco, trabalhou com Palmira Bastos, Lucília Simões, Amélia Rey Colaço, Maria Lalande e também com o galã Raul de Carvalho e João Villaret.

Teatro, filmes e telenovelas

Riquezas da Sua Avó, Labirinto, O João Ratão, Raparigas Modernas, A Portuguesa, A Casta Susana, Chuva de Filhos, Camões, Um Homem do Ribatejo, Os Vizinhos do Rés-do-Chão, A Noite de 16 de Janeiro, Os Comediantes de Lisboa, O Morgado de Fafe em Lisboa, Noé Voltou Ao Mundo, Outono Em Flor, Espada de Fogo, A Morgadinha dos Canaviais, Ribatejo, Um Homem do Ribatejo, Cantiga da Rua, Disco Voador, Ninotchka, A Farsa do Amor, Luz Sem Fim, A Loja da Esquina, João da Lua, Joana d’Arc, A Desconhecida, Come Tu Mi Vuoi, Noite de Reis, Um Serão Nas Laranjeiras, Os Pássaros de Asas Cortadas, Três em Lua de Mel, A Linha da Sorte, Os Direitos da Mulher, O Milagre de Anna Sullivan, Adorável Mentiroso, O Pomar das Cerejeiras, A Dama das Camélias, Recompensa, Os Anjos Não Dormem, Cenas da Vida de Uma Actriz, Mary, Mary, A Candidinha, Lições de Matrimónio, O Homem Que Fazia Chover, As Raposas, Verão e Fumo, Édipo de Alfama, Deliciosamente Louca, Quatro Estações, Oração, Os Dois Verdugos, Dois Num Baloiço, A Voz Humana, O Duelo, A Salvação do Mundo, A Mãe, As Criadas, A Maluquinha de Arroios, Gin Game, As Memórias de Sarah Bernhardt, Mãe Coragem e os Seus Filhos, O Caminho Para Meca, As Troianas, A Maçon, Tempos Difíceis, a telenovela A Banqueira do Povo.

Deu voz aos poetas que ama, como Florbela Espanca ou António Nobre
Em 2006 representou pela primeira vez na casa a que deu nome, o Auditório Municipal Eunice Muñoz, e Oeiras com a peça Miss Daisy.
Em 2007 co-protagoniza com Diogo Infante A Dúvida.
Eunice Munõz é sem dúvida alguma uma das maiores actrizes portuguesas que Portugal deve lembrar e por vezes tende em não o fazer.

Há muitas mulheres Portuguesas que têm honrado o nosso País pelo seu trabalho, a sua luta, a sua abnegação, que a pouco e pouco eu vou tentando colocar aqui neste blogue. Sem distinção de tempo, credo, religião, política ou raça, simplesmente porque são mulheres com M grande e porque são Portuguesas.

quarta-feira, 28 de março de 2007

Fado!

No outro dia alguém me dizia: - Estou a ficar velho! Gosto de fado!
Pois... e depois de uma retropetiva das músicas que aqui tenho colocado, constatei uma realidade, estou a ficar velha.
Pois o fado tem sido a minha escolha maioritária neste blogue!
Mas o Fado também é prenúncio de saudade, revivalismo, nostalgia, amor e ciúme.
O fado é a triste canção do Sul.
O realizador de cinema Carlos Saura diz que o fado surgiu no Brasil numa mistura da modinha européia com o lundu africano. Por esse motivo podemos ouvir fado no seu próximo filme na voz de Caetano Veloso, Chico Buarque.
O fado é principalmente Amália, Hermínia, Marceneiro, Camané, Mariza, Mizia, Mafalda, Guerreiro, Jorge F., e tantos outros do passado e presentes no futuro.
O fado também é Poesia e Pintura.
É Malhoa

Malhoa

terça-feira, 27 de março de 2007

D. Maria II

D. Maria II

"Era domingo de Ramos naquele dia 4 de Abril de 1819. Foi com emoção e alegria que o rei D. Pedro IV de Portugal e sua mulher, a arquiduquesa Leopoldina de Áustria, tiveram a sua primeira filha, nascida em terras brasileiras, no palácio da Boavista".
Assim começa a história desta Menina/Rainha que a única coisa que queria era ser feliz.
Maria da Glória Joana Carlota Leopoldina da Cruz Francisca Xavier de Paula Isidora Micaela Gabriela Rafaela Luísa Gonzaga de Bragança e Áustria - A Educadora ou a Boa Mãe –
Ficou sem mãe aos 7 anos. O pai será o seu grande amigo e protector. Nem mesmo os graves problemas políticos que D. Pedro IV enfrenta no Brasil e em Portugal lhe fazem esquecer a sua filha mais velha a quem vai escrever cartas sempre ternas, que terminavam “adeus minha adorada filha...teu saudoso pai que muito te ama D. Pedro”.
Outorga a Carta Constitucional e, simultaneamente, é combinado o casamento da jovem princesa com seu tio D. Miguel.
Em 1826, D. pedro IV, abdica do trono de Portugal, em nome da filha, Maria, apenas com sete anos.
"Esta menina começa a pouco e pouco a perceber que vai deixar de ser criança e que o seu destino lhe vai impor uma conduta diferente da das outra meninas da sua idade. Aos 9 anos, é mandada para a Europa, acompanhada pelo marquês de Barbacena, seu tutor, homem de confiança de seu tio D. Pedro, também ele nascido no Brasil, general e diplomata. O destino é a corte de Viena, para ser educada pela avó materna, mulher de Francisco I. Mas, durante o tempo da viagem, D. Miguel, em Portugal, proclama-se rei e o marquês de Barbacena considera mais seguro rumar a Falmouthe e, depois, até Londres".
Por questões de segurança a princesa Maria da Glória várias vezes até o dia em que o rei a mandou chamar para comandar os destinos do país! Tinha 15 anos.
Casou em 1826 ( tinha D Maria da Gloria 7 anos) com o seu tio D. Miguel. O casamento foi dissolvido e anulado em 1835. Nesse mesmo ano casou com príncipe D.Augusto de Beauharnais, e nesse mesmo ano ficou viúva. Voltou a casar em 1836 com D. Fernando de Saxe-Coburgo-Gotha. Tinha na altura D. Maria II somente 17 anos.
A crise era enorme e teve de vender todos os bens de raiz nacional pertencentes à Igreja Patriarcal, às Casas das Rainhas e do Infantado, das corporações religiosas já extintas e das capelas!
No seu curtíssimo reinado teve de defrontar várias lutas, a Guerra Civil, a revolução de Setembro, a Belenzada, Revolta dos Marechais, a Maria da Fonte, a Patuleia Teve 10 títulos, o mais importante o de Rainha de Portugal e dos Algarves!
"Foi, realmente, uma mulher de grande força de vontade e de uma coragem assinalável. Se alguns contemporâneos a consideravam de difícil trato e autoritária e até tenha tido fama de “tirana”, a verdade é que se não tivesse sido uma rainha com pulso não teria acabado o seu reinado já sem guerras civis e proporcionado aos seus dois filhos que foram reis - D. Pedro V (infelizmente prematuramente morto pela “Colera Morbus”) e D. Luís, reinados, com uma certa estabilidade. É sabido que D. Luís foi um exemplo de monarca constitucional. As crises políticas constantes no reinado de Maria da Glória não perturbam o seu ambiente familiar, mais do que uma vez toldado pelo profundo desgosto da morte dos filhos ainda pequenos. Dos 11 que teve, quatro morreram à nascença e D. Maria não verá o ano de 1861 em que os seus filhos, D. Pedro já rei, João e Fernando irão morrer da epidemia de cólera".
"A rainha tinha paixão pelo teatro, gosto esse que lhe ficara dos tempos vividos na Corte da França. Confessa que nos períodos de escassez de meios, quando reinou, lhe custava privar-se desse gosto. Vai empenhar-se, apoiada por Garrett, para que se construa um Teatro que será edificado no Rossio sobre as ruínas do palácio da Inquisição - O teatro D. Maria II, segundo projecto de Fortunato Lodi. As obras vão decorrer entre 1842 e 1846. O tecto tinha pinturas de Columbano Bordalo Pinheiro que foram destruídas no incêndio de 1964. A inauguração foi a 13 de Abril. O Banco Mercantil Portuense é inaugurado em 1850. Em 1851, sobe pela primeira vez à cena, nesse teatro, onde se introduziu a iluminação a gás, o drama de Garrett Frei Luís de Sousa. No campo das Letras, o período do reinado de D. Maria da Glória foi de uma fecundidade notável. Destacam-se Alexandre Herculano, que, além de escritor e historiador, foi um grande defensor do património nacional, tendo escrito mesmo, em 1838, Monumentos Pátrios, Garrett, Andrade Corvo, Bulhão Pato, João de Lemos, o matemático Daniet Augusto da Silva, o historiador visconde de Santarém, o legislador Mouzinho da Silveira. Na pintura, Domingos Sequeira pinta o seu belissímo quadro A morte de Camões, infelizmente perdido".
Teve 11 filhos "- Se tiver que morrer, morro no meu posto". Foi o que sucedeu, morreu vítima de parto (príncipe Eugénio) em 1853, com apenas 34 anos.
"D. Pedro V, o futuro rei, resumiria numa frase enternecedora aquilo que esta nossa rainha foi como mãe:
“Minha Mãe, que aprendeu na escola da desgraça, que tinha os instintos muito superiores à sua espécie, conseguiu de nós o que há séculos não via a Casa de Bragança, que os irmãos vivessem unidos” ".
É bom que tenhamos, por muito simples que seja, noção do que foi a vida destas grandes Mulheres Portuguesas, com os seus erros e as suas glórias.
Eis aqui uma das grandes Mulheres de Portugal, D. Maria II! A seu tempo irei aqui colocando muitas mais, tenha eu engenho e arte

segunda-feira, 26 de março de 2007

Salazar!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Acabei de ver o programa da RTP, Os Grandes Portugueses!
Salazar, foi o grande vencedor, com 41%!

É um concurso de Televisão, vale o que vale, mas isto é mau, muito mau! É um sinal dos tempos, dos maus tempos.
Hoje toda a gente comenta, como é possível isto ter acontecido! Somos um povo saudosista e atrasado em relação ao mundo. Vivemos para o revivalismo. A direita rejubila com as mediocridades deste povinho habituado a não pensar.
Uma direita que neste momento fragmentada e fragilizada, desorientada e sem governação, vem beber neste programa a sede de união, que o povo (será o povo?) lhe deu de bandeja!
Afinal o que é que os Portugueses querem, ditadura? Fascismo? Opressão?
Votar em Salazar é o mesmo que a Alemanha votar em Hitler, ou Itália em Mussolini, ou outro ditador num outro país qualquer!
Não é de preocupar se reparar-mos na faixa etária que votou em Salazar. É uma percentagem de gente mais velha, habituados a serem comandados e o receio de voar sozinhos revêem-se em um qualquer Salazar que lhes apareça pela frente.
O Diário de Notícias de hoje trás um Editorial sobre o assunto. Começa assim:

“Para uns, trata-se de um concurso de televisão que não merece atenção. Para outros, é um cenário de pesadelo imaginar que na televisão pública do Portugal democrático o povo possa vir a eleger Salazar como o maior português de sempre. Estou entre os primeiros: não só porque um concurso é um concurso, mas também porque uma votação na Internet é uma votação na Internet: pode ser facilmente manipulada e não é representativa da população. Vale apenas como curiosidade.”

Votar Salazar é votar contra a Liberdade, essa Liberdade que Abril nos abriu as portas. E isto é que é preocupante!
O meu candidato ficou em segundo lugar, mas isso não me deixa mais feliz. Qualquer um dos outros era preferível a Salazar.
Não gostei da maneira pouco elegante como Odete Santos defendeu o meu/dela candidato.
Por favor abram as janelas e arejem de novo este País!
Apetece-me ter aqui nesta hora, Manuel Alegre/Zeca Afonso, para acordar memórias adormecidas.


domingo, 25 de março de 2007

Novas vozes, outros tempos

Hoje o café acordou tarde! A mudança da hora fez os seus estragos e os clientes foram chegando devagar, ensonados e envergonhados!
Tinham dormido mais uma hora.
O tempo passou, o homem ficou a sonhar. Mas um café reconfortante e uma música que nos vai chegando aos ouvidos de uma qualquer estação de rádio, vai-nos despertando. O trinar de uma guitarra, coros que marcam a diferença. É um fado concerto!
Há dias assim, os que marcam a diferenç.
Descobrimos vozes que gostamos de ouvir! Músicas de todos os tempos, cantadas por gente nova que sabe o que faz. Vale a pena ouvir e visitar o Site!

Lágrima!
Yolanda Soares!